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Flea e o Funk Ostentação

Flea e o Funk Ostentação

Imagine um roqueiro – mais precisamente um baixista consagrado – de uma banda estadunidense mundialmente famosa tocando uma música de Funk Ostentação. Parece impossível? Pois saiba que o músico Flea, do Red Hot Chilli Peppers declarou nessa última sexta-feira, 04/04 que gosta do funkeiro MC Guimê e ainda compartilhou um vídeo em sua conta no Instagram, no qual tira um trechinho da música Plaquê de 100 no baixo.

Tudo aconteceu após ser publicada, pelo Los Angeles Times, uma matéria criticando o gênero por achar que sustenta a supervalorização do consumismo de grife e bens de consumo e a consequente transmissão de uma mensagem alienante e equivocada para jovens de baixa renda no Brasil. Flea compartilhou a matéria em seu perfil oficial no Twitter e em seguida postou “Queridas pessoas do Brasil, o que vocês acham disso? Eu gosto de MC Guimê!”.

Flea fez bonito ao mostrar que é um artista sem preconceitos e que respeita diversos tipos de sonoridades ao declarar “E eu gosto de Stravinsky também. Amo todo tipo de música. Nao sou cool, nem nerd. Sou apenas um tipo de pessoa curiosa.”.

Funk Brasileiro

O funk brasileiro surgiu na década de 80, nas favelas do Rio de Janeiro e teve como base o Miami Bass; um ritmo novo e popular na Flórida (um tipo de hip hop, com batidas rápidas e letras erotizadas). Popularizado pelo Dj Marlboro, um dos maiores protagonistas da história do funk brasileiro, o gênero começou com foco nos moradores de comunidades carentes, uma vez que retratava o cotidiano de violência e pobreza nas favelas.

Em seguida, no início dos anos 90, surgiu o Funk Melody, que explorava temas românticos e teve artistas como Latino, MC Marcinho e Claudinho e Buchecha como alguns de seus principais representantes. Ainda nessa década, Cidinho e Doca entraram para a história da música brasileira ao criarem o Rap da Felicidade (quem é que não se lembra do trecho “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci… E poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar…”), que virou praticamente um hino nessa época, em que canções pedindo paz, amor e humildade começaram a fazer sucesso e vieram como um apelo para apartar as brigas generalizadas que estavam acontecendo com frequência nos bailes funk entre os chamados Lado A e Lado B, com direito a espancamentos no Corredor Polonês.

Foi então que surgiu, no final dos anos 90, o polêmico Proibidão, com temas vinculados ao tráfico de drogas e, muitas vezes, exaltações a grupos criminosos locais e provocações a facções rivais. Já no começo dos anos 2000 estourou o que muitos chamavam de New Funk, que é caracterizado por músicas com conotação erótica. Foi nessa época que o ritmo começou a ganhar força no país, através de artistas como, Tati Quebra-Barraco e Bonde do Tigrão.

E quando parecia que não havia mais o que ser criado dentro do gênero, eis que surge, em 2008, o Funk Ostentação. Para a surpresa de muitos, essa vertente criada na periferia de São Paulo e Baixada Santista, tomou força e foi direcionada para outro público e com outro apelo cultural e social.

São Paulo é uma cidade que possui características e questões diferentes das do Rio de Janeiro. Enquanto o atual funk carioca é originalmente voltado para os problemas de violência e tráfico de drogas das comunidades carentes, a temática de São Paulo tem forte influência no rap, que sempre foi muito forte na periferia paulistana e não é tão focada à favela, é mais direcionada para a classe emergente, a classe C e exalta carros luxuosos e produtos de grife. As letras baseadas na exibição do consumo de alto poder aquisitivo vêm da imagem de ídolos do hip hop dos Estados Unidos como Jay-Z e 50 cent.

Funk Ostentação

O Funk Ostentação tem sido amplamente criticado por pessoas que afirmam que o ritmo passa uma mensagem alienante e incentivadora de desejos de consumo supérfluos à frente de itens básicos de necessidade. Mas toda história tem dois lados. MC Guimê afirmou na matéria do Los Angeles Times que antes de criticarem o público consumidor da música, as pessoas deveriam se queixar sobre a publicidade e os canais de TV que sempre mostram a família rica feliz e a pobre triste. Guimê disse que eles crescem vendo isso, que quem tem bons carros é respeitado na sociedade e que eles também têm direito de possuir um. “Quer queiramos ou não, a nossa sociedade é capitalista. Devemos negar isso? Não devemos falar sobre as marcas e empresas que dominam aqui? Então nós fazemos a música que é uma espécie de grito de liberdade, ao dizer: Temos coisas também! Nós temos um carro! Essa é a mensagem que estamos enviando”.

Para pessoas que pensam como Guimê, o Funk Ostentação traz canções de autoestima que visam levar ao povo o orgulho de sua origem. É como um protesto dizendo que estão cansados de se sentirem excluídos e que também possuem o direito de desfrutar de bens direcionados para outra classe social.

O rapper Emicida, que participa de uma das canções mais difundidas de MC Guimê, País do Futebol escreveu um artigo na revista Piauí em que fala sobre a crítica em torno do Funk Ostentação “Embora seja alvo de muitas críticas recentemente, o Funk Ostentação é também um fruto orgulhoso desta mesma árvore, pois em uma era consumista como a nossa o “ter” virou “ser”, e isso não é culpa da favela e quem transformou dinheiro em sinônimo de liberdade não foi a favela.”

E para terminar esse texto, transcrevo aqui uma frase dita por Emicida, na mesma matéria, que gosto muito e acredito que deveria ser um ponto de reflexão para todos “Antes de abominar, procure entender a história que os livros não trazem, a versão do leão e não a do caçador”.

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